Música, filhos e maternidade

Música, filhos e maternidade
Criar e Educar
19 de agosto de 2013

Enquanto musicoterapeuta, volta e meia sou bordada por gestantes com questões do tipo: “Que música devo ouvir para relaxar?”;  “Que música devo ouvir durante a gestação para estimular meu bebê?”; e tem também “É verdade que se meu bebê ouvir música clássica vai ficar mais inteligente?”

Existem estudos de utilização da música e de frequências sonoras específicas para estimulação, tratamento e cura de diversas patologias. Assim como, em termos neurológicos, o simples fato de escutar uma peça musical erudita e complexa, rica em timbres, dinâmicas, harmonias, ritmos e melodias, implica em sinapses e conexões neurais muitas vezes novas e estimulantes.

Mas a Musicoterapia pode trazer uma possibilidade outra de reflexão para nossa maternagem, pois fala que mais importante do que expor o bebê à música erudita é cantarolar para ele. Mesmo as melodias mais simples das canções mais antigas que conhecemos.

Para relaxar, nenhuma receita pronta, mas sim a música que te embala, que te pega no colo e te dá tranquilidade, que tenha um pouco da tua história. Essa receita serve para você, assim como para bebês pequenos.

sarah  no piano 2Durante a gestação o bebê está imerso em um universo muito barulhento: líquido amniótico, pulmões enchendo e esvaziando, líquidos digestivos, gases, pulsação cardíaca, voz materna, vozes e sons externos. As alterações de frequência cardíaca e pulmonar, bem como a inflexão da voz materna, são indicativos de tensão e relaxamento para os bebês, que percebem sonoramente, emocionalmente e fisiologicamente as adrenalinas e as endorfinas liberadas pela mãe.

Este ambiente sonoro se torna conhecido pelo bebê e o acompanha até depois do nascimento, visto que o recém nascido permanece corporalmente muito próximo à estes marcadores corporais da mãe. E esta voz materna, tão conhecida para o bebê, pode cantar para ele e assim transmitir afeto e segurança. Desta forma desde a vida intrauterina, a voz da mãe torna-se uma referência de acolhimento e bem estar para o pequeno. Por isso os musicoterapeutas prezam tanto por um repertório construído na relação mamãe e bebê . E seja qual for essa música, desde que seja cheia de subjetividade, de simbolismos e de afetos.

É na relação que se dá o vínculo. No cantar, nas afinações e desafinações, nos aceleramentos e desaceleramentos do dia a dia. Na música que a vó ensinou para a jovem mãe, na música que a mãe cantava quando adolescente, quando casou, quando enamorou-se. É com a música que produzimos histórias, lembranças, emoções.

E quando eles crescem

Essa relação “afeto-musical” vale para a vida toda. Aqui em casa, como muitas mães, eu tive dificuldades com os 2 aninhos do Bernardo – que hoje está com 3 e ainda encrenca com algumas coisas. Ele estava desobediente e agressivo, mais do que eu aguentava. Li , conversei com muitas pessoas, assisti a muitos videos da Super Nanny.  Um dia, de repente, vi que o pequeno estava cantando alguma coisa parecida com um Rap. Eram uns sons ritmados com algumas palavras que eu não entendia e com uma dança.

A musicoterapeuta em mim falou mais alto e comecei a cantar e dançar com ele um rap improvisado, com as coisas do nosso dia a dia… A resposta dele foi imediata! O refrão tinha o nome dele, sempre com uma mensagem do tipo “eu sei que você me entende, eu sei que você é um menino esperto” seguida da atividade a ser realizada, fosse o banho, o almoço ou a arrumação dos brinquedos. Tinha também partes em que ele improvisava, e eram sempre divertidas.

Foi um jeito lúdico e criativo de nos entendermos. Ele se sentiu respeitado e estimulado naquela produção sonoro-musical e através da música fazia tudo o que precisava ser feito. Nossa relação melhorou bastante. O rap esteve com a gente nas idas ao mercado e também na hora de dormir, do banho e de tudo que vinha com dificuldade, quase sempre funcionando.

Vocês cantam para seus filhos? Vocês deixam que eles ouçam suas músicas com vocês? Que músicas vocês cantam com seus filhos?  Que tal criar pequenas canções com eles?

Escreva para a Cíntia. Você pode acessar a página de contato ou enviar e-mail para contato@maezissima.com.br.

Cíntia é criadora do espaço Redescobrir Musicoterapia

 

 

 

Referências:

MILLECO FILHO, L. A.; BRANDÃO, M. R. E. e MILLECO, R. P. É preciso Cantar – Musicoterapia, cantos e canções. Rio de Janeiro: Enelivros, 2001.

WINANDY, Priscilla. Acalanto: um embalo para a vida. Disponível em: https://docs.google.com/file/d/0B7-3Xng5XEkFNTA4NThmY2YtNjkxNy00OWNhLWIzMWMtMDE2NmQ2ZDdjMTVj/edit?hl=pt_BR

STEFFEN, Luciana. Cantar: elementos não verbais e estados de humor no processo musicoterapêutico. Disponível em: https://docs.google.com/file/d/0B7-3Xng5XEkFR1pLY3kxcF9VV0U/edit

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