Pai, mãe e a autoridade necessária para a formação do caráter nos filhos

Entenda como o papel dos pais é fundamental nas várias fases do desenvolvimento da criança até ela formar completamente seu caráter. Um texto profundo e embasado sobre a formação moral das crianças. Você precisa ler isso!

Pai, mãe e a autoridade necessária para a formação do caráter nos filhos
Criar e Educar,  Especial,  Família
4 de setembro de 2016

Escola ensina, pais educam. Essa é uma frase bem conhecida para quem tem filhos. Mas, entender como é o processo de formação de caráter, desde bebê até pré-adolescente é fundamental para nos relacionarmos melhor com nossos filhos e poder contribuir positivamente para “entregar” filhos melhores para um mundo melhor.

Nesse texto, eu gostaria de ir um pouco mais a fundo nesse tema mostrando como se dá o processo de desenvolvimento moral da criança baseado nos estudos de Jean Piaget. Quero também mostrar o papel fundamental da família enquanto educadora e formadora do ser autônomo.

O fundamental para a vida social das crianças não é prepará-las para se limitar a obedecer as regras [porque adultos mandam e crianças obedecem], mas desenvolver uma autonomia que os fará seguir as regras porque as compreende. Porém, conquistar essa autonomia é resultado de um longo processo de formação da moral, onde os pais DEVEM assumir seu papel fundamental de autoridade.

Baseados no senso comum ou em teorias “da moda”, muitas famílias tem deixado de se preocupar em passar para os filhos a necessidade de cumprimento de regras e obediência. Porém existem complicações práticas quando isso acontece, principalmente na primeira infância. Deixe-me explicar esse ponto mais a fundo:

Piaget , em seu livro “Para onde vai a educação”, afirma que “as relações entre a criança e as pessoas que as cercam desempenham papel fundamental na formação dos seus sentimentos morais já que a criança não tem estes sentimentos prontos”. Vamos entender como moral a ideia do desenvolvimento da capacidade do ser humano em participar de maneira eficaz da vida social, com respeito a todo seu código de regras e valores. Esse é um processo que se inicia na primeira infância e continua por toda a vida do indivíduo.

Fases do desenvolvimento moral das crianças

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Piaget mostrou em seus estudos que a primeira fase do desenvolvimento moral das crianças é denominada anomia[a= ausência, nomia= normas], ainda entendida como uma fase pré-moral. Nessa fase a criança age de acordo com suas necessidades básicas: fome, sono, tédio. Ou seja, quando pequenas as crianças obedecem por hábito e não por consciência de certo e errado.

Em seguida as crianças entram para a fase da heteronomia, em que aceitam e reconhecem a regra que o outro lhe mostra, no entanto não compreendem o sentido de sua existência. Ou seja, depende de uma vontade exterior [geralmente dos pais], cumprindo a regra porque entende que é a única possibilidade de fazer o correto para “agradá-los”.

E por último experimentam a etapa da autonomia em que ocorre a legitimação das regras. O respeito a regras é gerado por meio de acordos mútuos e já é possível perceber outros pontos de vista, cooperar com o pares e relativizar sobre determinados comportamentos e atitudes. A regras são verdadeiramente interiorizadas.

Em outras palavras:

Espera lá: então as crianças pequenas não respeitam regras e podem fazer o que quiserem; quando crescem precisam dos pais em cima o tempo todo; e quando ficam maiores naturalmente chegam ao estágio da autonomia moral frente às regras?

Não, não e não! Estamos falando de um processo, que exige muito trabalho dos educadores [leia-se família primordialmente, escola e outras instituições significativas]. É muito importante saber que as crianças na etapa pré-moral , ou muito pequenas e bebês, já estão construindo seu repertório para a fase seguinte, a heteronomia. Mesmo muito pequenas é essencial delimitar seus espaços, ensiná-las a suportar frustrações, e não permitir que somente o prazer seja a sensação experimentada pela criança. Neste sentido afetividade e autoridade andam juntas!

Autoridade dos pais na formação do caráter

mãos família

Falando em autoridade, é importante lembrar que é também no espaço familiar que ocorre o aprendizado sobre o funcionamento da vida em sociedade que tem como essência a hierarquia das relações. Esse é um fator essencial porque as crianças precisam ter a noção que esses papeis se conservam. Independente de brigas ou desobediências, mãe sempre será mãe, pai sempre será pai, e filho sempre será filho.

Quando as crianças passam a interagir em outros ambientes, novas aprendizagens sobre o convívio social acontecem.Logo, escola e família complementam-se no aspecto do desenvolvimento moral das crianças. Isso representa a oportunidade de desocuparem o lugar privilegiado do seio familiar e enfrentarem os desafios de viver em sociedade, o que é primordial para a fase de transição para a heteronomia das crianças.

Viver em sociedade democrática pressupõe a importância do outro, conduzir conflitos com justiça e diálogo, coordenar perspectivas diferentes de uma mesma situação, estabelecer relações e entender a necessidade das regras para se viver bem é o caminho para o desenvolvimento da autonomia moral das crianças.

A manutenção saudável da relação de autoridade entre pais e filhos, com afetividade, respeito e escuta não deve ser confundida com os conceitos de autoritarismo, em que o respeito se dá pela imposição arbitrária [ranços da educação de gerações passadas, talvez experiência de muitos de nós]. Autoridade é algo diferente disso, é alcançada através de coerência entre ações e cobranças, e, se bem constituída, garante uma segurança necessária a criança pequena, além de admiração e respeito por parte do filho.

Danielle Gross de Freitas, psicopedagoga clínica do Espaço Mediação e pedagoga escolar da rede privada de ensino de Curitiba. Mestre em Educação pela Universidade Federal do Paraná.

 

REFERÊNCIAS:

GOERGEN, P. Educação moral hoje: cenários, perspectivas e perplexidades. Educ. Soc. [online]. 2007, v. 28, n. 100, pp. 737-762.

LA TAILLE, Yves de. Desenvolvimento do juízo moral e afetividade na teoria de

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Heloysa. (Org.). Piaget, Vygotsky, Wallon: teorias psicogenéticas em

discussão. São Paulo: Summus, 1992.

PIAGET, Jean. O juízo moral na criança. São Paulo: Summus, 1994.

____________. O julgamento moral na criança. São Paulo: Mestre Jon, 1977.

____________. Seis estudos da psicologia. 24. ed., Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1999. ____________. Para onde vai a educação? 18. ed., Rio de Janeiro: José

Olympio, 2007.

SAVATER, Fernando. Ética para meu filho. São Paulo: Planeta, 2012.

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