A criança de 6 a 12 anos: sexualidade precoce X aprendizagem

Um texto que discute a fundo as implicações da sexualidade precoce na aprendizagem. Leia, comente, compartilhe!

A criança de 6 a 12 anos: sexualidade precoce X aprendizagem
Criar e Educar,  Especial
7 de agosto de 2016

É incrível, mas a maioria dos pais nunca parou para se perguntar se existe alguma relação entre sexualidade infantil e desenvolvimento intelectual. Nesse texto quero mostrar que o perigo da sexualidade precoce não é somente o que costumamos saber. Embaixo do oceano, o iceberg é muito maior do que podemos visualizar!

Para entender um pouco mais de aprendizagem humana, nos remetemos à psicanálise. Um dos pilares mais abordados, nesse aspecto, são as fases do desenvolvimento sexual de Freud.

freudDe forma resumida podemos dizer que Freud mencionou em suas obras que até os 6 anos de idade a criança perpassa por três fases que não determinam uma sexualidade propriamente dita (aquela voltada para a procriação ou para o sexo oposto)  mas sim seu desenvolvimento através da descoberta do mundo e de seu corpo. São elas: fase oral, fase anal e fase fálica.

Na fase oral, até mais ou menos os dois anos de idade, a criança explora o mundo ao seu redor através da boca. Colocando as coisas na boca, ela sente as texturas, temperaturas, formas e etc. Na sequência, a fase anal, ocorre quando a criança começa a controlar seus esfíncteres, ou seja, quando ela consegue ir ao banheiro sozinha. Por fim, a fase fálica acontece quando os pequenos percebem que possuem um órgão genital e que existe um sexo oposto.

Essas fases mencionadas acima trazem a sexualidade como um desbravamento do mundo e de seu corpo e não determinam uma sexualidade propriamente dita! Esse período, como já mencionado acima, ocorre até os 6 anos de idade mais ou menos (lembrando que quando tratamos de pessoas nada é tão rígido e acabado).

Dos 6 aos 12 anos, para Freud, a criança encontra-se em um período de latência. Essa palavra latência significa o estado daquilo que é latente, ou seja, como um intervalo no desenvolvimento sexual para que, após, possam desenvolver sua sexualidade para a procriação. Nesse período de latência a energia das crianças é investida nas atividades escolares, abrindo espaço para a inteligência e para a cognição (para as aprendizagens) e nas relações sociais. A criança passa a se relacionar melhor com as pessoas que vão sendo inseridas na sua vida. Ou seja:  concentra-se em atividades como jogos, aprendizados, brincadeiras e amizades. Nesse período, as crianças se tornam capazes de se identificar com outros, que não seus pais, como colegas de escola, professores, personagens e heróis da ficção, que serão importantes para o seu desenvolvimento. Ampliam também, atitudes como a vergonha e a moralidade.

Mas o que estamos vivenciando em nossa sociedade atual? Crianças com a sexualidade exacerbada muito antes do que se espera, crianças vivendo uma sexualidade precoce. Além disso, toda essa energia que deveria ser canalizada para a aprendizagem e para as brincadeiras infantis está sendo desviada para o uso de maquiagens, roupas de adultos e festinhas com interesse pelo sexo oposto.

O período de latência está sendo encurtado por causa do afrouxamento de valores, da moral, das regras e limites, além do forte apelo sexual nos meios de comunicação, da invasão televisiva demasiada e acesso livre à internet.

escolaO encurtamento dessa etapa tão promissora vem provocando nas crianças dificuldades de leitura e escrita, assim como de se expressarem. Podem resultar ainda em transtorno de déficit de atenção, transtornos de patologia emocional e, mais acentuadamente, elevados níveis de ansiedade que acabam sendo diagnosticados erroneamente como THDA.

É importante que os pais entendam que a sexualidade precoce faz com que o período de latência seja interrompido ou encurtado e, consequentemente, pouco aproveitada.

O desafio para os pais é repensarem quais conteúdos entram em sua casa. E a pergunta é: o que estamos ofertando aos nossos filhos em período de latência? É importante que os pais vigiem ininterruptamente sobre o assunto, prestando a máxima atenção no que seus filhos estão tendo acesso através da televisão, internet, redes sociais, revistas, filmes e etc. Quer que seu filho tenha um aprendizado próspero? Prolongue sua infância! Deixe ele ser criança e ofereça conteúdos de criança.

REFERÊNCIAS

Enck, E. M. N. (2007). O encurtamento da latência e a puberdade precoce: um problema dos tempos atuais.Revista Psicanálise, 9(1), 119-138.

Ferreira, M. H. & Araújo, M. S (2001) A idade escolar: latência (6 a 12 anos) In: C. L. Eizirik, F. Kapczinski. & A. M. S. Bassols. O ciclo da vida humana: uma perspectiva psicodinâmica. (pp. 105-115) Porto Alegre: Artmed.

FREUD, S. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Rio de Janeiro, Imago, 1976:

Os três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905), vol. VIII

Wolff, M. P. (2009). O encurtamento da latência e a puberdade precoce: uma perspectiva psicanalítica. Revista Psicoterapia Psicanalítica, 11(11), 84-94.

Michelle Klaumann  é psicopedagoga do Espaço Mediaçãocontato@espacomediacao.com.br

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