Erros: como ajudar as crianças a lidarem com eles?

A maneira que lidamos com os erros dos nossos filhos no dia a dia interfere profundamente na concepção que ele terá de si mesmo, e sua relação com a aprendizagem de qualquer área (escolar ou da vida cotidiana). Já deu para perceber que o assunto é sério, por isso convidamos a psicopedagoga Ana Karina para nos ajudar nesse assunto. Acompanhe:

Erros: como ajudar as crianças a lidarem com eles?
Criar e Educar,  Especial
22 de janeiro de 2016

“Se eu lamento o erro, eu me apego a ele: o erro ainda está comigo. É melhor encontrar algum jeito de soltá-lo!”        (Barry Stevens)

Essa é uma das frases do livro “Não apresse o rio (ele corre sozinho)”. Stevens escreve um relato sobre o uso que faz da Gestalt-terapia e dos caminhos do Zen, Krishnamurti e índios americanos para aprofundar e expandir a experiência pessoal e o trabalho através das dificuldades. Em todo o tempo percebe-se que as situações e ofertas de aprendizagem que ela vivencia acabam proporcionando o contato da autora com os seus processos internos, fazendo com que ela conheça suas necessidades e interesses. Impressiona a sua fala referente ao erro! Soltar os erros! O que significa? Qual a relação do aprender com experiência pessoal?

Como psicopedagoga e professora, percebo os aprendizes muito preocupados com os erros. O medo de errar chega a ser paralisante. O autor, Guy Claxton apresenta três maneiras de como o medo afeta a aprendizagem:

1 –Pode deslocar o foco da aprendizagem, fazendo-nos prestar atenção à fonte de uma ameaça;

2 – Estreita a nossa visão, o que faz com que não consigamos perceber uma informação importante;

3 – Nos deixa distraídos com coisas não importantes.

caneta verde

Reformar o acerto é uma forma de lidar com o erro.

As crenças que desencadeiam o medo e a vergonha são muitas, mas incluem:

1- As pessoas de valor não cometem erros – apontando o valor dependente da competência;

2 – As pessoas de valor sempre sabem o que está acontecendo – sentir-se confuso e fora de controle, torna a pessoa indigna;

3 -As pessoas de valor correspondem e vivem de acordo com as imagens que têm de si mesmas – Agir de maneira imprevisível, inadequada ou desafiando precedentes e princípios é indigno;

4 – As pessoas de valor não se sentem ansiosas, apreensivas, preocupadas ou frágeis –  sentir-se nervoso, oprimido ou frustrado também é indigno e deve ser penalizado, como todos os outros aspectos, por uma perda de autoestima.

Essas crenças acabam censurando as experiências do processo de aprendizagem, pois são programações inconscientes  que não reconhecem que o erro, a ineficiência  e o “não saber” são processos do aprender.

Como ajudar nossos filhos a lidarem com o erro?

Segundo Claxton , “Precisamos de uma cultura onde as crianças não tenham medo de cometer erros, onde olhem e aprendam com eles. Onde reflitam de maneira contínua e melhorem o que estão fazendo e não que fiquem encantadas por obter a resposta certa rapidamente”.

Tal reflexão e experiência reforça a crença em si mesmo.  Acredito que  esse é o caminho para uma pessoa estar livre para se envolver com os desafios da aprendizagem. Acreditar em si mesma! Experimentar que o erro e o “não saber” não desvaloriza ninguém!

Fortalecer tal crença, penso ser o principal papel da educação. Para isso, as crianças precisam de um clima de confiança mútua com os adultos que a cercam. Enxergá-las e tratá-las como ser humano em sua totalidade, em sua unidade orgânica de sentir, pensar e agir  é o princípio para tal fortalecimento.

Confirmar seus sentimentos é reconhecer e afirmar a existência dessa pessoa, por isso, acolher  todos  os sentimentos durante uma tarefa ou situação é essencial para o desenvolvimento da existência do seu filho, mesmo que sejam considerados indesejáveis, como aqueles: “Estou triste porque errei o exercício de matemática” ou “Estou com raiva porque eu tenho lição de casa”. Evite as frases como: “ Você não pode errar”, “Aprender é gostoso, Você não pode ter raiva” ou “ É feio sentir raiva”, pois levam a criança a desenvolver as crenças que desencadeiam medo e vergonha, e como vimos,  não ajudam em nada o desenvolvimento do processo do aprender!

percurso dos labirintos

Imagem: Elis Alves – experiência nos labirintos lúdicos

Lembre-se que a aprendizagem só acontece com as  vivências que nos levam a nos conscientizar das nossas experiências internas. Não é o certo e o errado que nos fazem aprender, mas o nosso corpo, pensamento e sentimento envolvidos nesse processo! É no encontro com o outro que tudo isso ocorre. Como diz o filósofo Martin Buber: “O ser humano existe mediante ao encontro”. Seu filho depende desse momento com você!

Sugestão de leitura: O método da caneta verde

Ana Karina Karam El Messane – Psicopedagoga, especializada em Reabilitação Cognitiva com formação em Gestalt-Terapia. Entre em contato: karinakaram@gmail.com

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