Contando histórias para crianças doentes

Mara Mel, da ong Arte e Algria, fala sobre a importância de contar histórias e dos brinquedos para ajudar crianças quando doentes ou hospitalizadas. As dicas servem para os pais, mesmo em casa.

Contando histórias para crianças doentes

Quando penso nas histórias me vem à mente aquela mãe que possui vários filhos, mas, apenas dois braços, e que com muito esforço consegue acolher a todos de maneira amorosa. O mesmo acontece com as histórias: elas acolhem a todos que precisam.

Contando histórias para crianças doentes

Mara Mel e sua equipe em ação!

Ao ouvir as histórias, um pouco do mundo da criança, que lhe foi tirado pela hospitalização ou está doente e impedida de fazer suas atividades do dia a dia, por exemplo, lhe é devolvido. O lúdico, o brincar de faz de conta, o entrar na pele do personagem, é a possibilidade de viajar através das histórias, oportunidade da criança se manifestar de alguma maneira, e voltar a ter contato com o que lhe é familiar.

O poder terapêutico das histórias pode residir na relação que eles fazem com a vida, como afirma o médico e escritor Moacyr Scliar (2005, p. 153) “a literatura serve para muitas coisas: divertir, informar, curar e minorar o sofrimento das pessoas”. É nesse sentido que as histórias prestam uma grande ajuda para as crianças que as ouve, pois, através delas podem encontrar meios e exemplos para transformar o momento de crise pelo qual ela passa.

As histórias apresentam diversos contextos e situações que servem de alimento para o pensamento e a imaginação infantil.  Segundo Abramovich(1997): “É também suscitar o imaginário, é ter a curiosidade respondida em relação a tantas perguntas, é encontrar outras ideias para solucionar questões (como os personagens fizeram…)”. (Abramovich,1997). Quando contamos histórias para as crianças hospitalizadas estamos ajudando-as a entender o que está acontecendo com ela.

A doença e a hospitalização podem trazer diversos traumas para as crianças e seus familiares, pois, o ambiente hospitalar tende a ser frio e pouco acolhedor. Quando a criança passa por esse período difícil ela se vê afastada de tudo o que lhe é familiar e querido. Um grande temor se instaura em seu coração: medo do desconhecido. Essa crise psicológica pode afetar seu equilíbrio emocional. Esse desequilíbrio emocional pode agravar seu estado de saúde.

Como contar histórias para as crianças que estão doentes:

Contando histórias para crianças doentes

Super herói que ajuda as crianças durante a quimioterapia.

Crie histórias do dia a dia da criança enferma. Por exemplo, se ela precisa tomar remédios coloque isso na história.

 Como usar o lúdico para melhorar o entendimento da criança sobre a sua doença?

Como citei anteriormente o medo do desconhecido é o grande vilão da história. Para combater esse medo nada melhor que as histórias, as brincadeiras, os jogos, pois, eles trazem o lúdico para a vida da criança.

O brincar de faz de conta é muito bem vindo nessa fase de doença ou hospitalização pela qual a criança está passando, nesses jogos as crianças podem usar a simbologia para tentar entender a realidade desconhecida que a cerca. Para Piaget(1971) não há aprendizado sem experiência, sendo ela um ciclo gerador de aprendizado. Durante o período de hospitalização o brinquedo pode ser terapêutico, ajudando a criança na adaptação à ambiência hospitalar.

Através do brinquedo terapêutico a criança tem a chance de expressar com clareza um pouco dos seus sentimentos. O jogo simbólico, o faz de conta é fundamental para o desenvolvimento da criança, devido ao fato das atividades lúdicas exercerem uma grande importância em seu desenvolvimento. No jogo simbólico ou faz-de-conta, que consiste numa atividade lúdica, onde a principal função é a assimilação da realidade, através do brinquedo, da brincadeira e das histórias, a criança se propõe a realizar coisas na busca da resolução de problemas. Quando a criança tem a possibilidade de brincar no ambiente hospitalar por exemplo, o brinquedo se torna terapêutico ajudando em sua recuperação.

Em nossos projetos utilizamos o brinquedo para transmitir informações importantes para o tratamento da criança. O brincar de médico (faz de conta ou jogo simbólico), por exemplo, oferece a criança à oportunidade de conhecer mais sobre os procedimentos que ela terá de passar.  Através do jogo simbólico a criança encontra a possibilidade não só de copiar a vida real, mas, também de corrigi-la. Esses jogos segundo Piaget (1971) desempenham uma função compensatória onde, a criança pode manifestar suas emoções, satisfação de seus desejos e a eliminação de conflitos.

Contando histórias para crianças doentes

Mara Mel e equipe contando histórias para as crianças hospitalizadas.

Brincadeiras e atividades terapêuticas e educativas que podem ser desenvolvidas com crianças que estão doentes:

  • O brincar de médico

Objetivo: – Ajudar a criança hospitalizada a aceitar, compreender e ultrapassar os problemas vividos pela internação.

– proporcionar as crianças mecanismos que a ajudem a enfrentar o medo e a doença.

– Estimular o lado saudável da criança ajudando na sua recuperação.

Como desenvolver a atividade: Bonecos de plástico (que podem ser esterilizados) fazem a vez de pacientes que serão submetidos a consultas, cirurgias, exames, etc. Disponibilize uma mala com instrumentos médicos para a  brincadeira. Caso a criança não conheça explique como e para que eles são usados. Eles podem brincar examinando um ao outro também.

Durante a brincadeira faça as perguntas como:

– O seu paciente está com que doença doutor?

– Ele precisa tomar remédio?

– E se ele não tomar o que vai acontecer?

– Ele está fazendo uma dieta, ou seja, tem coisas que ele não pode comer? Porque doutor?

Para responder essas perguntas as crianças costumam colocar o que está acontecendo com ela. Se ela está de jejum, por exemplo, é comum ele “prescrever” essa dieta para seu “paciente” também. De alguma maneira ela transfere o que ela está passado para o brinquedo.

No nosso dia a dia no hospital utilizamos o brinquedo terapêutico com as crianças que são atendidas com o Programa “Cuidando com Arte e Alegria” desenvolvido pela ONG Arte e Alegria da qual sou fundadora e presidente. Quando brincamos de médico com elas percebemos que o brinquedo que elas mais gostam é a injeção. O boneco recebe várias injeções durante a brincadeira. Com o tempo percebemos que essa era uma maneira delas lidarem com o medo que elas tinham. Sempre brinco com elas dizendo: “é a hora da vingança.”

Mamães, Papais, vovôs, vovós, tias e tios agora chegou a hora de vocês inventarem histórias e brincadeiras para ajudar seus pequenos que estão doentinhos. Pegue as coisas que você percebe que eles têm dificuldade de assimilar e invente histórias, brincadeiras, truques enfim, qualquer coisa que os ajude a entender e cooperar com o tratamento ou procedimento pelos quais eles precisam passar. Coloque humor em sua criação, o riso também ajuda na cura.

Vamos lá? Compartilhe com a gente suas ideias. Mãos á obra!

Mara Xavier Melnik, contadora de histórias, mãe, pedagoga e lidera a  ong Arte e Alegria que usa histórias no dia a dia do hospital.

mara mel

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2 Comments

  • Boa tarde !

    Sou mãe e professora, amo crianças e tenho disponibilidade aos sábados para contar histórias ou dar suporte para crianças que encontram-se hospitalizadas. Sei que posso fazer apenas uma pequena parte porém gostaria de uma chance.
    Grata e atenciosamente,
    Rosana Santos

    • Que bacana Rosana. Passei seu contato para a Mara Mel, ela entrará em contato com você!

      Parabéns pela atitude.

      Abraços