Procura-se pais que exerçam sua função e mães que permitam a paternidade

Um texto sobre as funções paterna e materna na dinâmica familiar a partir de estudos da psicanálise. Afinal, o que é ser pai?

Procura-se pais que exerçam sua função e mães que permitam a paternidade

O filme “I am Sam” (Uma lição de amor) nos conta a história de um homem com deficiência intelectual que se vê sozinho na missão de criar sua filha. Na cena em que a menininha nasce, ele simplesmente olha para ela e, apesar de se saber limitado, afirma: “Oi! Você é minha filha e eu sou seu pai!”. “Eu sou seu pai! ”Parece uma afirmação boba e corriqueira, mas ela pode mudar o mundo de uma criança que só reconhece a paternidade naquele que realmente se designa a ser seu pai.

Quem estuda a fundo o desenvolvimento infantil, sabe que a função paterna tem um papel primordial na estruturação psíquica, emocional e na personalidade da criança, contudo, a grande dificuldade é saber: o que é ser um pai? 

ser pai

Ensaio de família – Imagem: Elis Alves

O que é ser pai?

Se tomarmos a teoria psicanalítica como referencial entendemos que exercer a função paterna é dar um nome à criança. O sobrenome do pai vai inserir esse novo humano em uma linhagem, genealogia, em um grupo, bem como inseri-lo na cultura, no universo da lei, das normas e das regras. É por isso que a voz cansada da mãe as vezes ecoa dizendo: “Quando o seu pai chegar, vou contar tudo para ele!”

Em meio a fusão mãe-bebê (ela é considerada uma extensão de seu próprio corpo), o pai entra como um terceiro nessa relação a fim de equilibrar a equação. Embora o seu jeito de fazer as coisas por vezes seja desastrado ou imperfeito na perspectiva da mãe, ele é sumamente importante e aponta outros caminhos que devem ser percorridos. O fato do pai fazer diferente da mãe não é ruim. É necessário. O jogar a toalha pra cima e dizer: “A mamãe saiu! Somos só nós!” e cometer pequenas “transgressões” domésticas faz a inscrição no filho e o circunscreve em um universo fora do alcance materno, abrindo as portas do mundo para ele.

O grande desafio é que só é possível ser pai se a mãe permitir. Ela precisa deixar que ele entre na mistura e faça o que tem que ser feito. Assim, ele precisa, antes de tudo, ter espaço na vida dela como homem. O papel primeiro do pai é proteger a mãe e permitir que ela cuide do filho e, depois disso, ele deve protegê-la dela mesma, de sua onipotência materna. A criança percebe que há outras fontes que apelam para o desejo da mãe e se põe a olhar para fora também. O pai é o terceiro lado do triângulo que ajuda a sustentar essa relação tão subjetivamente complexa.

ensaio de família

Ensaio de família por Elis Alves

Declínio da função paterna

Alguns teóricos da atualidade afirmam em alta voz que vivemos em um momento da queda do patriarcado e, mais do que isso, um declínio da função paterna. Essa teoria  aponta para um fato: há poucos pais. Porque ser pai não é apenas doar o sêmen, não é apenas receber o título, mas é ser um fio condutor. Isso evidencia-se facilmente nas próprias redes sociais onde vemos tanto destaque para o papel das mães, para o seu dia e tão pouca pompa para os pais.

É fato que há mais pais indo às consultas médicas, às escolas e aos parques, mas isso também não significa que o pai está mais presente. Vemos muitos ‘pães’ (pais que assumem a função materna) e isso deixa uma enorme lacuna no desenvolvimento psíquico do filho. É evidente que quando nos referimos a “assumir o papel da mãe” não estamos falando das questões práticas como os cuidados diários com os filhos, mas sim de uma postura subjetiva diante deles. O pai e a mãe devem compartilhar todas as tarefas nos cuidados com os pequenos, ele não deve apenas ajudar. O filho não é da mãe, é deles. São parceiros. Mas a importância está em cada um assumir sua postura específica diante deste ser.

Conheço alguns pais que se colocam ao lado da criança contra a mãe, ignorando-a, sendo criança junto. Outros que, em contrapartida, por serem ausentes, não barram a mãe, colocando limites no poderio materno por vezes dizendo: “Deixe que eu assumo daqui”. Assim, o filho fica perdido.

No final das contas, o pai deve ser um equilibrista. Ele media as relações entre a mãe e a criança fazendo uma marca, protegendo, provendo. Ele é um elemento identificatório mais forte do que a mãe, ou seja, ele é alguém em quem os filhos devem se espelhar. O menino, para ser como ele, e a menina, para alcançar um amor como o que ele lhe dá!

Imagem: Elis Alves

Imagem: Elis Alves

Procura-se pais! Você é um?

Feliz dia àqueles que irrompem na corajosa, árdua e, eventualmente, pouco celebrada jornada de serem pais! Um dia vocês ouvirão de seus filhos: “Porque há nas tuas mãos, meu velho pai, essa beleza que se chama simplesmente vida”(Mario Quintana).

Ana Gandour ─ Neuropsicologia e desenvolvimento infantil

Ana GandourPsicóloga, mestre em psicologia clínica e doutora em psicobiologia com ênfase em neurociências. Avaliação e reabilitação neuropsicológica infantil.

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1 Comment

  • Só tenho uma palavra: Não pude ser pai é meu maior desejo e te-lo e ouvir essa palavra do meu próprio filho , mesmo adotado :FELIZ DIA DOS PAIS OU UM SIMPLES : OI PAI , PAI POSSO IR … ALGO SEMELHANTE . SOU ESTÉRIL . DEUS ESTEJA COM TODOS ( AS )

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