Relato de parto – Sonhei com parto natural, mas vivi uma cesárea

Nem tudo é como planejamos. Sonhei muito com um parto natural, mas vivi o que foi possível: uma cesárea humanizada.

Relato de parto – Sonhei com parto natural, mas vivi uma cesárea
Especial,  Ser mãe
4 de agosto de 2017

Faz um mês que vivi meu segundo parto, o nascimento da minha filha Ester, às 6h30, do dia 4 de julho, numa madrugada fria de Curitiba. Um mês depois, além da alegria de estar com minha filha nos braços, sinto também meu corpo se recuperando de uma cesárea que eu não planejava, depois de 15h de bolsa rompida e nenhum sinal de dilatação ou trabalho de parto ativo. O parto natural que eu sonhava e trabalhava ativamente para viver, não aconteceu. Isso me fez lembrar que, como tudo na vida, na hora do parto não temos controle de nada.

grace parto

Foto tirada na maternidade, enquanto esperava a cesárea

Quando entrei na 39ª semana de gestação, já estava me sentindo muito grande e pesada, já se sentiram assim? Tudo era “chato”: seja sentar, comer, dormir, se vestir, sair de casa. Então encontrei minha doula e peguei uma bola de pilates emprestado. A partir de então passei aquele fim de semana pulando e me alongando naquela bola. Me exercitei até me sentir fisicamente cansada. O recado da doula foi: descanse, pode ser que precise de energia para o parto.

Na segunda-feira estava exausta. Minha filha mais velha já estava de férias, fui então leva-la numa colonia de férias para poder descansar. O lugar era a 5 quadras de casa, fui e voltei andando. Quando voltei em casa estava ainda mais exausta. Deitei para descansar um pouco. Minutos depois acordei assustada com um líquido vazando, minha bolsa tinha rompido as 15h30 da tarde.

Fiquei tão emocionada com aquele acontecimento que tremia enquanto tomava uma chuveirada. Lembro de pensar: vai começar! Em poucos minutos meu esposo já estava em casa. Já tínhamos liberado a Julia para uma amiga cuidar e aguardávamos a doula.

Eu tinha algumas contrações, elas vinham, doíam um pouco, mas eram muito irregulares e totalmente suportáveis. Chegamos a anotar num papel a frequência que elas vinham, mas só serviu para ter certeza que não tinha engrenado o trabalho de parto.

Algumas horas depois a doula chegou, jantamos, conversamos, assistimos TV, pulei mais um pouco na bola, já eram meia noite e nada ainda. A recomendação então foi: tente dormir e descansar. Se nada acontecer até as 03h30 da madrugada vamos ao hospital porque nesses casos é preciso tomar medicação, já fecharia 12h de bolsa rompida e existe o risco para o bebê.

parto grace

Primeiro contato com a Ester

Mas como é que faz para dormir numa situação dessas? Não fechei os olhos. Sentia as contrações irregulares, um pouco mais forte, mas nada terrível. Conversamos sobre limiar de dor e comentei: meu medo não é ter um limiar muito grande e chegar no hospital já parindo, mas exatamente o contrário. Chegar lá e ver 1 de dilatação.

Pois é… meu corpo já estava me falando o que estava acontecendo mas eu continuava insistindo. Às 2h30 fomos para o hospital. Depois de um exame de toque bem doído veio a constatação: não tinha nada de dilação. Nada.

Essa é minha segunda gestação, na primeira vivi uma cesárea agendada e me arrependia do procedimento. Dessa vez queria que tudo fosse diferente. Sonhava com o parto natural, com a recuperação rápida, até com as dores das contrações. Por isso, passei os 9 meses fazendo pilates, subindo e descendo escadas, lendo tudo sobre parto natural, mas parece que o que Deus tinha reservado para mim era realmente entender a frustração das mulheres que não conseguem parir naturalmente e vão para cesárea. Precisei passar por esse parto para ter ainda mais empatia com todas aquelas que precisam escolher, no hospital, se aceitam a indicação médica ou se arriscam. Mas arriscar nesse caso envolvem duas vidas, você e do seu bebê. E quem é que banca esse risco?

Eu não banquei. Em um determinado momento decidi aceitar que meu corpo não estava em trabalho de parto. Nesse momento todas as contrações pararam. Eu estava no centro obstétrico, ainda discutindo as possibilidades na minha situação, quando percebi que não tinha sinal de trabalho de parto realmente. Não sentia nenhuma dor, nenhuma contração. Senti, naquele momento, uma grande paz em aceitar os procedimentos médicos.

Fomos para a cesárea, minha doula me consolando e tentando garantir a humanização, o que realmente aconteceu na medida do possível. Abaixaram o pano para eu ver a retirada da Ester da minha barriga, colocaram ela para mamar enquanto fechavam o corte.

cesárea humanizada

Amamentação na primeira hora de vida – também é possível na cesárea

Talvez pela negação, talvez pela idade (35 anos), a recuperação dessa cesárea está sendo muito mais dolorida. A anestesia foi pior, o corte também, o inchaço pós parto também. Precisei chorar a tensão vivida muitos dias depois, e talvez ainda tenha outros para chorar.

Mas de todas as coisas que quero guardar dessa situação, duas delas são fundamentais para mim: a primeira é a empatia com as mulheres que não conseguem parir naturalmente, e a gratidão por viver numa situação e um tempo que há recursos e profissionais para garantir que mesmo sem entrar em trabalho de parto após 15h de bolsa rompida, eu e minha filha estamos com saúde. Ela nasceu linda e saudável com 3,250kg, 49 cm. É um docinho de menina.

Escrever esse relato faz parte de um processo que talvez leve tempo para terminar, ainda preciso aceitar o que me aconteceu da forma que aconteceu. Não fui vitima de um sistema, muito menos da desinformação. Não fui empurrada para uma cesárea, nem sofri violência obstétrica. Apenas não vivi a história romântica que planejei para meu parto, mas não é exatamente assim a maternidade? Um constante desmascarar do conto de fadas romântico, do comercial de margarina, mas viver, superar, enfrentar e vencer o dia a dia de ser mãe. E ser mãe de duas meninas lindas é sem dúvida uma nova e desafiadora aventura. Mas daí já é assunto para outros relatos.

familia Grace

Mini ensaio já em casa. Imagem Brenna Codonio

Grace  I. Barbosa ─ MãezíssimaGrace e Julia perfil

Idealizadora e fundadora da Mãezíssima. Mãe da Julia, jornalista, escritora e empreendedora. Aprendendo todo dia a ser uma mãe possível. Amante das boas histórias e de compartilhar conhecimentos que realmente fazem a diferença na vida dos leitores.

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3 Comments

  • Querida “vizinha” que relato lindo e sensível. Obrigada por partilhá-lo!
    Muita força na sua trajetória de autoreconstrução. Um beijo no coração!

    • Obrigada “vizinha”. Ainda vamos tomar uma xícara de chá e conversar sobre nossa trajetória tão próxima e tão diferente, não é mesmo? Um grande abraço, querida.

  • Grace, obrigada por dividir conosco o seu relato! O desfecho foi bem semelhante ao meu segundo parto. Vamos marcar um café um dia para trocarmos histórias, sentimentos e até as frustrações desse momento tão maravilhoso! Saúde para vcs!

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