Sobre ser pai ou exercer a função paterna

Se a função materna é o aconchego, a função paterna é o movimento. É preciso que exista esses dois componentes na criação de filhos saudáveis emocionalmente. Entenda um pouco mais sobre qual é a função paterna na educação e criação dos filhos com a pedagoga Laura Monte Serrat Barbosa.

Sobre ser pai ou exercer a função paterna
Criar e Educar,  Especial
21 de fevereiro de 2016

Assim como acredito que não existe uma infância, e sim infâncias que se caracterizam pela época em que as crianças vivem essa fase, pela cultura que as cercam, pela situação econômica daqueles que as educam, pela religião vivida, pela visão de gênero, de raça e por tantas outras questões que influenciam a vida das pessoas, digo também que não é possível falar ao pai sobre sua participação na educação de seus filhos, e sim a todos aqueles que exercem a função paterna nessa educação.

dia-dos-paisÉ sabido que nossas crianças podem nascer em diferentes configurações familiares: em muitas delas, não existe a figura masculina que é identificada como pai; em outras, os avós assumem o papel educativo; ainda há aquelas em que duas figuras do mesmo sexto formam o casal que educará a criança; também existe a situação em que somente um dos progenitores exerce a função de pai e mãe, se o outro, por alguma circunstância, não pode assumir seu lugar; além de tantas outras particularidades… Isso, pois, me faz falar de função paterna, papel de pai, e não do papel do pai.

Para o desenvolvimento do ser humano, são importantes dois tipos de elementos: o aconchego (o cuidado, a proteção) e o movimento (que o tira da acomodação, que o lança para o mundo e que o ensina como viver nesse mundo).

O primeiro elemento faz parte da função materna, responsável pela sobrevivência da pequenina criança que não consegue sobreviver de forma saudável se não tiver cuidados necessários; o segundo diz respeito à função paterna, a função que traz a novidade, as regras para vivê-la, e a vivência de outras emoções que não a de ser uma criança superprotegida.

A função paterna é exercida pela pessoa do par educativo que, mesmo a criança sendo pequena, é capaz de, por exemplo, lançá-la para o ar e alcançá-la novamente, em meio a risos, diante do olhar assustado da mãe ou de quem exerce o papel de mãe. É a função que permite que a criança viva experiências diferentes, sem deixar de lado as regras necessárias para essa vivência, mas sem proteger tanto que a impeça de arriscar.

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Essa função traz para o cenário familiar a brincadeira, a aprendizagem, o conhecimento, a possibilidade de crescimento para que, em cada idade, a criança possa experimentar a autonomia que for possível.

Quando existe o par educativo, é mais fácil de exercer essas duas funções; enquanto um protege, o outro traz o novo e, se houver entendimento entre os responsáveis pela educação das crianças, isso faz com que elas possam amadurecer como pessoas, mergulhadas no mundo em que vivem.

Quando um deles, homem ou mulher, por algum motivo, está sozinho para exercer o papel educativo, precisa equilibrar, em suas ações, a função materna e a paterna. Precisa proteger e dar segurança, ao mesmo tempo em que necessita proporcionar experiências acompanhadas de suas regras, dos limites possíveis, mas oportunizando o exercício da potência de seus filhos.

Nesse sentido, os pais, ou aqueles que exercem o papel de pais, têm como tarefa ajudar a romper a ligação superprotetora que se estabelece entre a mãe, ou aquela que exerce o papel de mãe, e a criança. Esse papel de terceiro é importantíssimo para que os filhos possam exercitar suas capacidades, sem sentirem-se onipotentes (aqueles que tudo podem, protegidos em suas transgressões) e nem impotentes (aqueles que nada podem e dependem sempre do outro para dar um novo passo).

Diz um velho ditado que os pais salvam as crianças das mães. Poderíamos entender, com isso, que filhos debaixo das asas maternas por muito tempo não aprendem a se soltar, não conhecem a luz e, por isso, vivem a dependência. Assim, alguém precisa ajudar a levantar essas asas, de forma cuidadosa, em tempo certo, possibilitando à mãe, ou a quem faz o papel de mãe, acreditar nas possibilidades de seus filhos, assim como, às crianças, o exercício de serem capazes, sem que a experiência ameace sua integridade física, moral, afetiva e mental.

As duas funções podem ser exercidas pelos dois componentes do par educativo, e não é preciso que sejam rigidamente estabelecidas. O importante é que o par mantenha diálogos constantes, no sentido de perceber qual a função está prevalecendo, em que momento, qual a sua pertinência, se há exageros, para que a saúde integral das crianças seja o foco principal nessa relação de educar.

Laura Monte Serrat Barbosa – psicopedagoga, palestrantes e autora de diversos livros sobre aprendizagem e educação de crianças pequenas

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