A vida secreta dos pais

O Paizíssimo Rogério Galindo fala nesse depoimento sobre ser pai de bebê e viver todos aqueles momentos íntimos de alegria e empenho. Você vai se identificar !

A vida secreta dos pais
Família
10 de agosto de 2013

Não tenho como lembrar os meus primeiros meses de vida, claro. Não me lembro de estar no colo de meu pai, nem de minha mãe me embalando para dormir. Não me lembro de alguém preparar mamadeiras para mim nem de cantar para que eu me acalmasse. Imagino que tudo isso tenha acontecido e que meus pais tenham feito isso com carinho e dedicação. Mas é só o que posso fazer: imaginar.

Sei que o mesmo acontecerá com meu filho. O Bernardo tem cinco meses. E logicamente não se lembrará de nada que fazemos juntos hoje. Por mais que eu consiga fazer ele rir, ou por mais que me empenhe em fazer tudo direitinho para ele, tudo isso, no futuro, será apenas um período de que ele não se lembrará. Estou lidando meramente com o passado remoto de uma futura vida adulta.

Mês dos PaisDaqui a alguns anos, quando for adulto, ele não vai se lembrar dos dias em que ficamos juntos, abraçados. Das vezes que eu segurei a bolinha com o guizo para que ele batesse nela. Não vai ter nenhuma lembrança das historinhas que lemos juntos, sobre sapos, ratos e meninos felizes. Tudo isso passará em branco. Tudo isso será a pré-história dele, e talvez ele nem se interesse por saber disso.

As horas que passamos juntos na poltrona dando mamadeira serão nada. Ele nem desconfiará quantas vezes rodopiamos pelo quarto com papel de parede de ursinhos ao som de Sinatra. Colados um no outro, ele cabendo perfeitamente no tamanho do meu abraço. Nem se lembrará que toda vez que vou trocar a fralda dele dou beijos nos pés e que ele ri desmesuradamente quando digo que ele não tem chulé.

Mas, curiosamente, mesmo sabendo que isso será esquecido, me empenho a cada momento como se isso fosse decisivo. Não por obrigação, mas porque é bom, ou porque parece a coisa certa, ou só porque nos divertimos fazendo essas coisas. Mas, talvez, principalmente, porque é isso que pais e filhos fazem juntos, especialmente nessa fase da vida. Tentam se divertir e ficar felizes. É isso que pais fazem: tentam manter seus bebês felizes e saudáveis. Sem motivo. Simplesmente porque é assim que deve ser.

O Bernardo, por sorte, também não se lembrará dos meus atrapalhos, da minha falta de jeito e até do meu nervosismo excessivo, ainda bem… E talvez só vá entender tudo o que eu vivo hoje daqui a muitos anos quando estiver com meu netinho ou minha netinha no colo, preocupado com o bebê e com o que devia estar fazendo por ele, por ela.

Comigo, foi assim. Uma noite, pouco depois do parto – e são as mais longas! – estava na poltrona, embalando o Bernardo e me peguei pensando em vários amigos que tinham filhos pequenos como o meu. Imaginei cada um deles sentado em sua cadeira, tentando igualmente fazer o menino dormir, a menina acalmar. E depois pensei em gente que já teve de fazer isso em outras épocas, em outras eras. E me senti pela primeira vez como parte de uma grande irmandade.

Me senti membro de uma corrente que desde tempos imemoriais vem garantindo que as coisas fiquem bem para os que acabam de chegar ao mundo, mesmo sabendo que isso não será nada demais no futuro. Senti que estava aprendendo um segredo que vinha sendo passado para frente havia muito tempo, mas que só agora eu podia compreender. Um segredo singelo, mas que permite que nossa espécie se mantenha viva e bem ao longo do tempo. E que vai continuar passando assim indefinidamente, de geração em geração, pelos séculos dos séculos. Amém.

Rogério Galindo

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1 Comment

  • LINDA MENSAGEM.PODERIA TER SIDO FEITO O VÍDEO.