Nem o melhor, nem o pior. Como lidar com expectativas?

Não há nada errado em sonhar com o futuro dos nossos filhos. O problema está em amarrar o destino deles aos nossos sonhos. Engessar seu desenvolvimento pelo que achamos ser o melhor pra eles.

Nem o melhor, nem o pior. Como lidar com expectativas?
Especial,  Ser mãe
24 de junho de 2015

Ser pai é criar expectativas. Não sei se somos como as mães, mas desde o primeiro minuto de vida de nossos filhos criamos uma série de imagens mentais de como será o futuro deles. Não há nada errado em sonhar com o futuro deles. O problema está em amarrar o destino deles aos nossos sonhos. Engessar seu desenvolvimento pelo que achamos ser o melhor pra eles.

Vivemos em um mundo de músicos frustrados e artistas que na verdade queriam ser contadores. Um dos maiores desafios da paternidade é dar espaço para nossos filhos criarem seus próprios sonhos. Quando olho pra minha filha vejo uma artista. Cheia de ritmo, cheia de cor, cheia de criatividade! Mas quem garante que estou vendo o quadro completo e não apenas buscando achar eco para os meus sonhos pra ela? Quem é ela de verdade? Vai ser musicista, dançarina? Ou vai preferir ser contadora ou engenheira? Não existe um futuro certo, apenas o futuro real.

expectativa de pais

Paizíssimo Silvio e Julia. Imagem: Daniel Isolani

Meu desejo é que ela use seu talento e habilidade pra ser a melhor que puder naquilo que escolher fazer. Quero que ela me peça conselhos, mas não quero decidir por ela. Quero que ela busque minha opinião, mas que ouse desobedecê-la quando julgar que seu caminho esteja certo. Quero que ela machuque o joelho por tentar correr e que não fique confortável andando somente no meu colo. Quero que ela seja capaz de fazer escolhas sábias e que sempre arque com as consequências boas ou más que advém delas.

Não é fácil dar um passo atrás. Talvez a história bíblica do filho pródigo seja um dos mais belos exemplos que encontramos na literatura mundial. Um pai que permite que seu filho tome decisões erradas, mas pronto para recebê-lo de volta agora com sabedoria e cicatrizes. Não é fácil ver nossos filhos errando. Queremos ajudar, queremos proteger. Talvez esse seja o grande erro de nossa geração: somos super protetores e quando faltamos ou falhamos nossos filhos não estão preparados para a vida real.

Não seremos capazes de proteger nossos filhos de todos os desgostos da vida. Mais sábio seria ensiná-los a lidar com esses dissabores. Ensinar que se algo está alto podemos usar um banco pra alcançar. Ensinar que quando dói podemos colocar remédio. Ensinar que a saudade é doída. Ensinar que a decepção faz parte da vida. Ensinar que nossas expectativas nem sempre se cumprem. Eles com certeza aprenderão também que existe alegria depois da dor. Que o amor pode surgir depois de uma decepção. Que a felicidade do reencontro acaba com toda a dor da ausência. Serão homens e mulheres com vidas reais vivendo seus próprios sonhos. Não será fácil pra nós pais super protetores, mas será muito melhor para nossos filhos.

Silvio Barbosa – pai da Julia, bancário e escritor.

posts relacionados

Comments are closed.