Ninguém dá o que não tem – sobre ser mãe em tempos difíceis

Como dar carinho se sua vida interior (e às vezes exterior também) está um caos? Como ter paciência quando sua mente está borbulhando de problemas? Como criar filhos quando estamos fragilizadas, esgotadas e se sentindo solitárias?

Ninguém dá o que não tem – sobre ser mãe em tempos difíceis
Especial,  Ser mãe
20 de setembro de 2015

Sei que é muito delicado falar sobre ser mãe em tempos difíceis, mas como não tratar desse assunto num blog sobre maternidade? A verdade é que existem dias que vamos precisar enfrentar a dura realidade de não poder dar o que não temos e quando isso acontece, nós mães sofremos duplamente: nosso sofrimento interno e o sofrimento que geramos a nossa volta.

Principalmente com filhos pequenos, bebês e recém-nascidos, o dia a dia pode se tornar extremamente exigente e desgastante. Temos que ter paciência para ensinar de forma amorosa (já que somos contra palmadas, ok?), paciência para repetir mil vezes o mesmo pedido àquela criança no auge da sua teimosia. Temos que ter boa vontade com as pessoas que não fazem ideia o que se passa na nossa vida e nos cobram. Temos que suportar as horas extras no trabalho, o aperto financeiro. Temos que ter paciência pra viver bem com o marido que às vezes parece viver um outro mundo que não o nosso. Temos que cuidar de nossa aparência, que a essas horas já está tão descuidada.

não basta ser mãeTantas exigências, muitas delas verdadeiras, outras inventadas por nós ou por quem nos rodeia, mas todas elas nos esgotam fisicamente e emocionalmente. Entramos num ciclo de ir além do nosso limite para oferecer o que nos pedem, sem nos dar tempo para recuperar o fôlego. Então achamos que podemos fazer ainda mais e novamente não nos damos tempo para o cuidado com o nosso interior. Depois de algum tempo nesse ciclo autodestrutivo chegamos ao nosso limite e estouramos com os outros ou ficamos doentes. É quando damos o grito com o filho sem algo tão sério que justifique aquele destempero ou temos a crise de choro. Cada uma sabe quando ultrapassou o seu limite. Quando finalmente percebemos que descuidamos de algo muito importante: nosso mundo interior, nosso jardim secreto, nosso “estoque” interno, o cuidado consigo mesma.

Nessas horas é preciso ser um pouco displicente com a casa, pedir ajuda com as crianças, para poder tratar nossas próprias feridas, fazer nossas escolhas. E isso só se faz sozinha, em silêncio, fazendo suas preces, refletindo sobre como suas escolhas estão repercutindo na sua vida e na vida da sua família.

Geralmente nessas horas percebemos que não damos conta de tudo, que é preciso reorganizar nossas prioridades, que é preciso tomar decisões para começar a respeitar você mesma e o tempo que precisa para o cuidado com seu interior, para carregar suas baterias, encher seu “estoque”. Porque toda mudança começa dentro de nós e se espalha ao nosso redor como a pedra que cai no lago calmo, mas mudar exige reflexão e escolhas. E quando falamos de escolhas da maternidade, sabemos que estamos falando de decisões que irão afetar a todos. Se escolhemos trabalhar mais, teremos de arranjar mais ajuda com os filhos e com a casa. Se escolhemos trabalhar menos, temos que pensar no orçamento familiar. Tanta gente fala em escolher as prioridades, mas na prática é muito mais difícil viver e respeitar essas mudanças.

não dêNão podemos mudar ninguém, essa é uma dura verdade. Mas podemos mudar a importância que cada pessoa ou  afazeres, tem na nossa vida. Podemos mudar a quantidade de energia que gastamos com função que exercemos, para poder dar mais atenção e cuidado ao que é mais importante. Dar o melhor de nós para aqueles que dependem de nós para entender o mundo e inclusive, para aprender a lidar com os dias difíceis. Mas só você pode definir o que é prioridade na sua vida.

É verdade que somos multitarefa, é verdade que temos sempre a predisposição a dizer sim a mais trabalho, mais compromissos, mais… mais… mais… Porém somos apenas mulheres, mães e não super-heroínas. Todas as coisas nos solicitam e “gastam nossa energia”, precisamos escolher bem onde vamos empenhar o nosso melhor. Como vamos distribuir, conforme as nossas prioridades, nossa atenção, esforço, paciência ou em outras palavras, nossas horas de bom humor, nossas tardes de domingo ensolarada, nosso limite de paciência.

Se você é mãe de bebê recém-nascido, não se cobre demais. No primeiro ano somos muito mais mães do que qualquer outra coisa. Somos o peito que alimenta, o colo que acalenta e tudo bem, porque existe essa necessidade. Espero que você esteja com seu mundo interior fortalecido para aguentar os dias difíceis que também acontecem nessa fase. Aqueles dias sem dormir, sem comer direito, sem conseguir tomar um bom banho e repor as energias.

coragemConforme a criança cresce as coisas melhoram gradativamente. Mães de adolescentes ou adultos dizem que os problemas não param, só mudam de situações. Mas em todas as fases, o mais importante é não descuidar do seu interior, das suas baterias. Não desprezar os momentos pequenos, singelos, que nos enchem de força para encarar o corre-corre. Os momentos que acumulamos carinho, atenção, cuidado, força, resiliência, para viver todos os outros momentos distribuindo esses afetos a quem está próximo a nós.

Não nascemos sabendo amar, aprendemos. A mesma coisa para paciência, boa vontade, coragem. E com todas essas sentimento recarregados podemos voltar a nossa vida de mães muito mais seguras. Como ser mãe em tempos difíceis? Cuidado do seu mundo interior, fortalecendo sua coragem, resiliência, fé, confiança em dias melhores, porque eles virão!

Dê valor ao seu mundo interior. Dê valor aos pequenos momentos. Dê valor a você mesma e se deixe cuidar sempre que houver oportunidade.

Grace  I. Barbosa ─ Mãezíssima

Grace Barbosa - Autor do Mãezíssima

Idealizadora e fundadora da Mãezíssima. Mãe da Julia, jornalista, escritora e empreendedora. Aprendendo todo dia a ser uma mãe possível. Amante das boas histórias e de compartilhar conhecimentos que realmente fazem a diferença na vida dos leitores.

 

posts relacionados

9 Comments

  • Que texto singelo, acolhedor, e a realidade que passamos diariamente…como me encontrei nessa leitura.
    Você foi muito feliz ao abordar esse tema. Um abraço!

    • Obrigada Yonny! 🙂

  • Grace, um dos melhores textos que li desde que me tornei mãe há três anos. Revigorante ver em palavras os sentimentos de que está na segunda etapa, entende-se segundo filho, há 50 dias. Obrigada querida. Abracos

    • Oi Larissa, obrigada pelas palavras. Pode ter certeza que tudo que está escrito é fruto da minha experiência pessoal e aprendizado. Desejo que seu interior esteja totalmente carregado para essa nova fase – segundo filho. E quando as coisas apertarem, dê um jeitinho de recarregar as baterias.

      Desejos de felicidade e paz!

      Grace

  • Belissimo!!
    É a pura verdade… me cobro e me cobrei muito quando meu filho nasceu… sempre tenho a sesação que nao estou sendo uma boa mae ou fazendo certo.
    Fiquei muito mal, procurei ajuda e estou me tratando com terapia, centro espirita e acima de tudo colocando Deus na frente de tudo….
    Nao serei a melhor mae do mundo, mas o que importa é eu ser uma boa mae para meu filho,cria-lo para o mundoe ele ser feliz no caminho do bem.

    • Tenho certeza que será uma mãe incrível para seu filho! Já está sendo!

      Abraços!

  • adorei o texto, palavras revigorantes nessa jornada de ser mãe

  • Foi incrível ler isso , estou passando a pior fase da maternidade até hj por mim vivida, não posso dizer que 100% pior porque tenho duas fazes aqui em casa e a que me enlouquece é adolescência da minha filha mais velha Yara 13 anos. Tenho dois filhos ela de 13 e o Isaac de 5 anos passei noites em claro com eles bebês , idas ao hospital de madrugada, sustos e mais alguns inúmeros desafios.Mas esse da tal da adolescência esse não desejo pra ninguém, como é difícil ser mãe de uma pessoa acha que sabe das coisas, que quer fazer algumas coisas da sua maneira ou que não quer fazer simplesmente nada . Nunca imaginei na vida que passaria por isso, achei que seria diferente pois fui mãe dela nova e achei que teríamos uma relação bem legal por isso. Mais cá estou eu iludida perdida e totalmente sem direção sem saber como agir oque fazer pra mim não existe desafio maior na vida do que educar um adolescente , ensinar eles a pensar ,ensinar a fazerem escolhas corretas definitivamente esgotada !!!!

    • Oi Kellen, super te entendo. Sei como é se sentir esgotada. Mas tenha força e ânimo. Você vai dar conta de abastecer sua reserva de energia e alegria e com elas encarar os desafios de frente.

      Pensamentos voltados para você.

      Beijos