Parto normal: o que a vida quer da gente é coragem!

Relato do parto normal hospitalar onde informação, conhecimento e coragem fizeram toda a diferença! Conheça a história do nascimento da Maia, filha da Taiana Bubniak

Parto normal: o que a vida quer da gente é coragem!
Especial,  Ser mãe
29 de julho de 2015

Por ser jornalista e estar acostumada aos textos informativos, sérios e objetivos, venho há semanas protelando a tarefa de escrever o meu relato de parto normal hospitalar. Como explicar o que senti e o que vivi no dia que minha primeira filha veio ao mundo? Como escrever um relato de parto normal tão pessoal sem ser piegas? (Impossível, vocês verão). Não poderia transformar o principal em um lead (no jargão jornalístico, o primeiro parágrafo de um texto, que deve conter as informações mais importantes) e escrever uma reportagem. Afinal, não estou reportando um acontecimento, eu de fato o vivi e foi a experiência mais intensa e corajosa que já tive.

Senti ser preciso se conectar com tudo de mais primitivo que temos – vamos esquecendo que somos bichos e queremos ser limpos e “civilizados”, mas agora entendo que toda esta carga cultural, de regras e códigos sociais tem de ser deixada de lado na hora de parir e cuidar da cria. A dor das contrações do parto normal – eu ouvia meus ossos estalarem; o esforço do expulsivo – uma profunda e inexplicável vontade de fazer força que deve ter envolvidos todas as minhas ancestrais; e, por fim, segurar aquele serzinho nos meus braços e reparar naquele rostinho de recém-nascido com detalhes que eu nunca mais vou esquecer.

É difícil explicar e, por isso, é necessário viver. (Mulheres, façam o que puderem para sentir a experiência do parto normal. Sentir as dores necessárias para saber que no instante seguinte do nascimento elas vão embora é uma experiência sublime). Um dos meus escritores favoritos, Rubem Alves, dizia: “ostra feliz não faz pérola”. É para se livrar do incômodo de um grãozinho de areia que as ostras fazem algo tão belo e valioso. A dor do parto normal tem seu valor, por mais estranho que isso possa parecer.

Começo do parto normal, ainda em casa

Minha experiência maravilhosa de parto normal começou na sexta-feira, dia 22 de maio, quando completei 38 semanas de gestação. Um dia depois de mudar de apartamento (acho que minha filha esperava a resolução dessa pendência para vir ao mundo), eu e meu marido, Rodrigo, fomos ao supermercado e a uma loja de materiais de construção. Mais ou menos seis horas fora de casa, andando pra lá para cá, entre as prateleiras. Eu já vinha sentindo algumas contrações nas semanas anteriores, mas, naquela dia, elas vinham e demoravam mais para passar, estavam longas. Eu até comentei com o Rodrigo, mas achamos que era normal e continuamos tranquilões (aliás, decidimos que toda a gravidez e o parto seriam “de boa” e assim seguimos).

Chegamos em casa, organizamos algumas coisas e o Rodrigo fez uma janta para a gente. Depois de um belo bife, bateu um cansaço e fui dormir. Às 4h da manhã acordei com muita dor de barriga e tendo uma contração. Fui no banheiro e voltei a dormir. Às 5h, a mesma coisa. Às 6h, de novo. Meu intestino estava limpo (risos); o corpo sabe o que faz. Tentei dormir outra vez, mas deitar estava desconfortável e eu fiquei andando pelo apartamento – afinal, era nossa nova casa e eu queria ver cada espaço para pensar em como organizar tudo. Estava sentindo contrações bem doloridas, mas também achando tudo normal. Às 7h senti uma contração bem forte e o Rodrigo acordou com um grito que eu não consegui segurar. Desde que despertou, foi ele meu grande apoiador e incentivador – como em toda a gestação – para que o parto fosse como sonhávamos: parto normal sem intervenções desnecessárias.

Eu estava muito tranquila porque não tinha me dado conta ainda que a Maia nasceria tão em breve… O Rodrigo resolveu anotar o tempo das contrações e elas já estavam vindo de 5 em 5 minutos. Ligamos para a doula, que nos tranquilizou, pediu para que a gente ficasse em casa, relaxasse o quanto fosse possível e comesse. Se aquele fosse o início do trabalho de parto – que costuma demorar – precisaríamos de energia para enfrentar as horas seguintes.

Coragem e resiliência para enfrentar a dor do parto normal

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Arquivo pessoal

As contrações vinham cada vez mais doloridas e o Rodrigo me ajudava. Fiquei de joelhos, em quatro apoios, deitada, dancei, rebolei… e a dor ficava suportável (juro, é possível). O Rodrigo me incentivou a ir para debaixo do chuveiro, enquanto continuava cuidando do tempo entre cada contração. Foi maravilhoso! Eu sentia a dor, mas não era uma dor ruim, era a dor necessária. Ele veio me perguntar se estava tudo bem. “Está até gostoso!”, eu disse. Risos outra vez.

Sempre achei que eu fosse muito sensível à dor e temia que esta possibilidade me assombrasse demais no momento do parto normal. Mas fui resiliente desta vez e aprendi a lidar com a dor, afinal, fui percebendo que a dor viria e eu sabia pelo que iria passar naquele minuto de angústia. É adorável aprender a sentir aflição e saber como driblar o momento, ou melhor, saber que ele acaba. É difícil explicar, mas a dor de parir é efêmera. A natureza é maravilhosa e no intervalo entre as contrações o corpo fica leve – é uma sensação indescritível que nos faz retomar as energias para a próxima contração.

Continuávamos em contato com a doula, que nos orientou a ir para a maternidade para ver com o plantonista como estava a dilatação, já que as contrações vinham a cada 3 minutos… O caminho de carro até lá foi um pouco desesperador, mas durante o trajeto de casa até a maternidade, o Rodrigo fez um trato comigo: caso eu tivesse com 7 cm de dilatação ou menos, eu poderia escolher receber a analgesia. Se estivesse com mais, já poderia estar muito perto do fim e, se eu tinha aguentado as dores até então, poderia fazer o esforço de passar pelo resto do trabalho de parto normal sem analgesia (que nessa hora era tudo que eu queria). Topei.

Uma experiência de parto normal hospitalar humanizado

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Foto tirada logo após o parto normal- Arquivo pessoal

Chegamos na maternidade e passamos por uma breve burocracia para enfim ser atendida– tive que assinar quatro vias de um documento, passar meu endereço (como consegui lembrar do CEP?), tive várias contrações no corredor e cogitava a possibilidade de a Maia poderia nascer na sala de espera… Por fim, o plantonista me atendeu e informou que eu já estava muito próxima da dilatação máxima, entre 9 e 10 cm! “Tua filha vai nascer em pouco tempo”, ele me disse. Achei que ele estava brincando e ele precisou repetir mais duas vezes que sim, estava em pleno trabalho de parto e em breve iria parir.

Rodrigo fez valer o nosso trato e então o parto seria sem analgesia. Nesta altura do campeonato é claro que eu perguntei se os batimentos cardíacos da minha filha estavam saudáveis – “caso fosse necessário, eu aceito a cesárea”, eu cheguei a comentar. Meu obstetra chegou em pouco tempo e informou que não havia tempo para mais nada: nem analgesia, nem cesárea. Só parir. Tive sorte de contar com equipe e marido inexoráveis.

Fui internada no quarto 31 da Maternidade Curitiba às 11h, e por cerca de meia hora ainda tive contrações de dilatação, que ficam mais doídas no final do processo. Não deu tempo, no entanto, de usar os apetrechos do quarto, que está preparado com itens para diminuir o desconforto das contrações. Eu queria ter a Maia na água – tem banheira no quarto – mas quando terminou de encher eu já estava na maca, ajoelhada e apoiada no encosto, que estava em 90°. Logo começaram as contrações do expulsivo. Nesta fase eu não lembro de sentir dor, mas uma vontade imensa e inexplicável de fazer força. É preciso se concentrar e fazer a força certa, e eu demorei cerca de uma hora para pegar o jeito e ficar melhor posição para mim – fiquei sentada, com os pés apoiados no estribo – e ser certeira na forma de agir. Quando acertei, veio a Maia ligeirinho, toda de uma vez, às 12h25. A pequena tinha 48 cm e pesava 2,760 kg. Veio direto para o meu colo, ainda ligada ao cordão umbilical que o Rodrigo só cortou quando parou de pulsar. E aí, mais nada das dores do parto normal, sentia apenas amor e a singularidade infinita de ser mãe.

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Maia aos 2 meses. Arquivo Pessoal

Nada se compara a ver de perto aquele rostinho lindo, o olharzinho desconfiado dela pela primeira vez, as bolinhas brancas na lateral do nariz… E eu estava plenamente consciente de tudo que tinha acontecido. O Rodrigo foi com o pediatra e a Maia até o berçário para pesar e medir e, logo depois do parto, tomei um banho reconfortante. Pronto, estava preparada para tudo que viria a seguir: amamentação, cuidados com a pequena… Uma hora depois do parto eu já não lembrava da dor e estava sentada de perna de índio em cima da cama, com a Maia no colo, aprendendo a mamar. Me sentia plena e pronta para o próximo parto!

Taiana Bubniak, jornalista, mãe da Maia, esposa do Rodrigo, uma mulher de coragem e determinação. 

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Plano de Parto

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